Carta extra 1 – Manda foto de agora

Querida Ana,

Sinto sua falta. Estou escrevendo isso à mão e punhos e dedos porque essas mesmas mãos e punhos e dedos tocaram todos os lugares do seu corpo e sinto que jamais te mandar isso por mensagem seria o suficiente. Digitar em um chat e ver as coisinhas entrando no celular e aparecendo no seu não seria nada perto do que eu quero mesmo fazer. Eu quero gritar. Quero gritar tão forte e tão alto que você iria ouvir daí o quanto eu sinto dor se espalhando em cada pedaço da minha alma nesse momento.

Isso tudo é injusto. Injusto em tantos e tantos e tantos níveis que eu sou incapaz de decifrá-los todos para colocar aqui nessa carta. Não faz sentido que os ipês da praça aí perto continuem suas existências como se nada tivesse mudado. Que eu tenha voltado pra cá e a cidade seja exatamente a mesma.

Chorei todo o caminho de volta. Quando pensava que ia conseguir parar de chorar, as lágrimas simplesmente apareciam e encontravam o seu caminho pelas minhas bochechas e iam morar na minha blusa, na minha boca, no chão. Tenho a sensação estranha de que chorei até mesmo dormindo. Algo dentro de mim não parou de chorar nem depois que cheguei aqui.

Te vejo em todos os lugares que eu olho. Te imagino segurando a minha mão quando estou na grama do jardim; perguntando sobre cada uma das lojinhas estranhas enfiadas em becos no centro da cidade; te imagino quando como qualquer comida gostosa e tipicamente mineira. Eu sempre te imaginei, mas agora… agora sua imagem está queimada em cada célula dos meus olhos. Ela me acompanha em cada movimento que eu faço, do menor ao mais elaborado. Cada decisão que eu tomo, cada subir e descer no meu peito.

Você é como uma estrela brilhante em cada pedacinho da minha existência e, Ana, meu deus, eu sinto tanto tanto tanto a sua falta. Eu sabia que seria difícil, mas puta merda, sabe? Ninguém avisou que ia doer tanto. Que eu ia chorar tanto. Que nunca mais ia dar pra encarar o mundo da mesma forma.

Antes, parecia que a qualquer momento eu iria explodir, ou surtar e pegar um ônibus e começar essa jornada de viagem.

Agora, cada instante é uma lembrança do tempo passando. Tempo que não estou com você, tempo que me afasta do seu toque, tempo que me leva pra longe, muito longe.

Tomo banhos sentindo que você escorre junto da água entre os meus dedos e é como se estivessem dilacerando nossas memórias. Segundo o google, daqui aproximadamente um mês não haverá mais nenhuma célula na minha pele que um dia foi tocada por você. O calor da sua mão contra a minha está literalmente descendo pelo ralo então eu choro (de novo) sentada no box do banheiro praguejando o universo por oferecer tão livremente algo que iria me tomar tão rápido.

Injusto, Ana. Tudo isso. Não que muita coisa na vida tenha senso de justiça, pra começo de conversa. Mas não é sobre isso. É sobre desespero. Vontade. É sobre acordar de manhã imaginando um calor que poderia estar contra o meu corpo e quase acreditar que ainda estou na sua casa. Sobre quase esquecer que estamos de novo separadas por uma infinidade de terra. Só pra logo em seguida ser atingida pela realidade como um balde de água gélida que espreme, destrói e esmaga.

Preciso que isso deixe de ser temporário. Preciso dormir com você com a certeza de que vou acordar no dia seguinte sem que você tenha desaparecido, ou que eu tenha desaparecido. Preciso esquecer da sensação de pisar em um avião com um cronômetro ligado, meu coração uma bomba prestes a detonar.

Só quero te amar, Ana. Sem medo de que o amanhã nos devore, impiedoso, sedento, com os dentes afiados e baba escorrendo da boca. Não sei se aguento outra dessas. Acho que toparia (quase) qualquer maluquice que me levasse de volta pra você agora. Desesperador demais. Uma necessidade visceral.

Sei que daqui um tempo você vai ter o suficiente pra vir pra cá. Eu tenho medo de que essa visita te quebre tanto quanto te visitar me quebrou. Mesmo assim, anseio por esse dia com um egoísmo tremendo — não sei se tem como ser egoísta se eu sei que você também quer, também precisa disso, mas o que eu sei a essa altura?

Não consigo afirmar se o calendário na parede conta mais um dia longe de você ou menos um dia até que a gente consiga estar juntas de forma definitiva. Os dois acontecimentos brigam, tentando ocupar minha cabeça e coração. Eu, no meio, me dilacero. Saudade, raiva, desejo, ânsia, tanta ânsia. Eu achava que sabia o que era ânsia. Eu estava totalmente enganada.

Nenhuma sede, fome, vontade, nada do que veio antes é sequer comparável ao buraco insaciável que está morando no meu peito agora. Ele tem seu nome estampado em todos os cantos, sua imagem impregnada em cada célula, seu cheiro que é só uma memória, a sensação da sua pele que é menos que uma memória.

Você é meu céu, Ana. Um mar onde eu posso soltar minha alma e deixá-la navegar livremente. Um porto onde eu me amparo em dias difíceis. As sombras frescas de uma floresta úmida que pode ser perigosa, mas também é acolhedora.

Eu te amo. Ansiosa. Desesperada. Com fome. Com sede. E com calma, como quem espera porque o outro lado é muito melhor. Eu te espero porque agora eu sei, mais do que nunca, que o outro lado é infinitamente melhor.

O outro lado é qualquer lugar em que estivermos juntas.

Vou viver todos os dias esperando por isso.

Com amor (e tanta, tanta saudade),

Pams

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